Maria Gorda - O Baobá:
“Sorte por longo prazo
a quem me beija e respeita
mas sete anos de azar
a cada maldade, a mim feita.”
(1627)
Poço de São Roque:
Beba dessa água pensando na pessoa amada
e, por você, essa pessoa ficará grandemente apaixonada…
e se ainda não tem par,
beba um gole só: bem devagar…
e, por você, um coração dessa ilha irá se apaixonar…
Gruta dos Amores
Era no tempo dos Tamoios que Itanhantã ia em sua ubá -espécie de canoa usada pelos índios - pescar e caçar na Ilha de Paquetá. Depois, ele sempre repousava no aconchego de uma gruta.
Uma indiazinha, chamada Poranga, ia diariamente encontrar Itanhantã, mas ele não lhe dava a mínima atenção! Todos os dias Poranga subia na gruta e cantava, esperando Itanhantã chegar, pescar, caçar e descansar. E todos os dias suas lágrimas caíam na pedra.
O canto e o choro de Poranga não amoleceram o coração de Itanhantã, mas suas lágrimas conseguiram abrir um buraco na pedra e, certo dia, caíram sobre os olhos do caçador adormecido. Ele se assustou e saiu correndo para a sua ubá, quando avistou Poranga e disse: “Cunhã-Porã” - moça linda em Tupi.
No dia seguinte, ao voltar ao seu local de descanso, Itanhantã reparou a linda voz da indiazinha e apaixonou-se por ela. Os dois foram felizes pelo resto de suas vidas. E as lágrimas de Poranga se transformaram na fonte que existe até hoje na Gruta dos Amores.
Dizem que quem quiser manter o amor para a vida inteira, basta beber da fonte da Gruta dos Amores, junto com a pessoa amada.
Ponte da Saudade
“Tudo aconteceu no tempo em que os escravos desembarcavam neste cais, vindos de Brocoió, onde faziam quarentena, antes de entrar em contato com a população de Paquetá. Por esse fato é que o cenário desta estória teve como palco este lugar.
Seu personagem principal foi um preto forte e triste, chamado pelos negros de João Saudade e, pelos feitores, de João da Nação Benguella. Seu nome criou fama nas senzalas onde, na prosa dos mais velhos, foi um mito, falado e venerado por toda a gente escrava.
João da Naçao Benguella, no tempo do mil réis, foi vendido aqui por 400$000, avaliados pela força e robustez da exuberância muscular do seu contorno.
Dizem que veio da África num dos navios negreiros de Francisco Gonçalves da Fonseca, o dono do “Solar Del’Rei”.
Como era de costume, depois da quarentena em Brocoió, veio para ca numa falua, que uma vez por mês encostava neste cais da “Praia das Pedreiras”.
João obedeceu com resignação ao costumeiro ritual; porque em seu peito não havia lugar – nem para ódios, nem para revoltas – porque já estava todo cheio de um outro sentimento: a enorme saudade que lhe fazia sofrer por Januária, e lhe fazia viver pelo amor de Loreano, um pretinho rechonchudo; filho deles dois.
João Saudade não podia imaginar o que fora feito deles. Quando foi capturado, não houve tempo nem para um abraço, nem para um “adeus”!
Os anos passavam lentos e João passava os anos rezando pelo amor dos dois. No íntimo de si havia uma certeza estranha… uma esperança, que a falange de Iemanjá, que o trouxera sobre as ondas, também traria seus dois amores que, um dia, ele veria chegar naquela “ponte”, depois de alguma quarentena em Brocoió. Algo lhe dizia que o destino lhe havia reservado um reencontro… e era por ele, que rezava aos guias e esperava ali a cada desembarque.
Passaram-se os anos. E cada ano que passava era mais longo… mas nenhum, maior que a perseverança de João “Benguella”. Durante o dia, trabalhava nas caieiras; e à noite, rezava junto ao cais, conversava com a Lua, falava com as estrelas, molhava os pés cansados nas águas amenas deste mar, e lavava as suas mágoas nas gotas de sereno. Somente quando ouvia o pio das primeiras aves despertadas é que parava de falar com a Estrela Dalva. Olhava para o céu, despedia-se da noite já passada; dava um bom dia para a madrugada e voltava… devagar e triste, para as tristezas da senzala.
Todos os dias João chegava, cabisbaixo… cansado de rezar em vão, por encontrar um lenitivo para a dor desta saudade que, amargurando a sua alma, minava a resistência do seu coração, transbordando-lhe nos olhos refletida em cada lágrima.
João não era apenas um escravo triste. Para alguns dos velhos, era a própria encarnação humana da saudade.
O tempo passava como de costume, no correr dos anos: João, sua Saudade, os desembarques, o velho cais… Mas eis que um dia, João não regressou com os passarinhos… e os escravos, na senzala, deram falta dele e, em vão, o procuraram.
O desaparecimento de João Saudade aconteceu na manhã seguinte de uma 6a feira em que a rotina da noite foi quebrada por um fato de espanto e de mistério: - talvez por dois minutos, um clarão estranho transformou a noite em dia, sem que ninguém soubesse explicar por que! Apenas viram surgir no Céu uma estrela muito grande e muito bela, e os seus raios de luz, iluminando a noite, encheram a “Ponte da Saudade” de um clarão de prata, que foi visto por todos na senzala. Quando o clarão se apagou, João Saudade, que rezava no cais, havia desaparecido juntamente com a estrela brilhante e os seus raios de luz.
Ninguém, jamais, soube explicar o que aconteceu à estrela e a João Saudade que, desde aquela noite desapareceu misteriosamente.
Tornou-se crença dos escravos que aquela estrela foi a falange iluminada de Iemanjá que, pela força da Saudade de João “Benguella”, teve permissão do Astral para buscá-lo, pondo fim ao sofrimento do seu Banzo; saudade imensa pela qual viveu, e pela qual sempre pediu para ir embora.
O cais onde João ficava passou a ser chamado de “A Ponte da Saudade”, transformando-se em local de reza e ritual dos negros, na esperança de que um dia também, pela força da Fé, fossem levados por alguma estrela… e libertados”
A Garça Cinzenta
Dr. Marcelo A.L. Cardoso
Dizem que a garça cinzenta é um animal que dá sorte. Quando ela aparece no caminho dos pescadores eles ficam cheios de alegria, na certeza de que é um prenúncio de farta pescaria. E acontece o mesmo com todas as pessoas que são pelo menos um pouquinho supersticiosas. Ao ver a garça cinzenta, abrem logo largos sorrisos de satisfação pela esperança de sorte no trabalho, no jogo, no amor.
Raramente ela aparece por aqui. Ela é da cor das manhãs de nevoeiro e tem na cabeça uma plumagem preta, como se fosse um chapéu, ou melhor, uma coroa; um sinal talvez de realeza.
Sua raridade desperta natural curiosidade. Por quê existem tão poucas ? Por quê não vêm mais por aqui ? Como surgiram, se todas as outras garças são completamente brancas ?
Essas perguntas sempre me intrigam e, com certa vez, ouvi uma explicação muito interessante que me foi dada por um dos mais antigos pescadores de Paquetá. Ele era filho de um escravo que viveu aqui por muitos anos e que trabalhou nas caieiras, onde todos os negros eram chamados de “pés-de-pavão”, porque pisavam no cal e ficavam com as pernas brancas com as daquela ave. O pai desse meu amigo pescador disse ter aprendido essa história com um outro escravo bem mais velho do que ele e que conhecia muito bem todas as lendas sobre os índios tamoios que viveram em Paquetá. É a “lenda da garça cinzenta”, que agora vou lhes contar:
“Ela fala de um Kuru-mi que no dia foi caçar em Ajurubá-Ibá - a ilha das árvores dos papagaios e encontrou lá um ninho abandonado, com um ovo solitário dentro dele, e pensou então que talvez fosse melhor trazê-lo para Pac-etá - a ilha das muitas pacas - onde ele tinha um socó que vivia na sua oca, na praia da Imbuca (águas que rebentam) e que comia na sua mão, peixes que ele lhe dava. Aquele socó quase não voava, andava pela oca, ciscava na beira da praia e era mansinho. Quem sabe fosse fêmea e pudesse chocar no seu ninho o ovo achado em Ajurubá-Iba pelo Kuru-mi ? E foi o que o indiozinho fez: Trouxe o ovinho e o colocou no ninho do socó que, de pronto, deitou-se por cima dele e o chocou com enorme alegria. No tempo certo, a avezinha nasceu, quebrou a casca do ovo, esticou o pescoço e saiu. E em breve pos-se de pé, piando e andando atrás do socó, à espera de larvas e de peixinhos. Ela tinha a mesma cor do socó, mas alguma coisa parecia diferente: tinha o bico, o pescoço, e as patas muito compridas, ao contrário dos socós, mas o seu jeito era o mesmo que o delas , e ficava cada vez mais parecido com eles, à medida em que mais convivia com a sua mãe adotiva.
A avezinha passou toda a sua vida assim, no meio dos outros socós, voando pouco, ciscando na beira da praia e aceitando comida na mão, sempre mansinha.
Um dia (e é bom lembrar que essa história aconteceu há muito tempo, quando os bichos falavam), a garcinha-cinzenta, que pensava que era um socó, viu uma linda e elegante ave branca, como a neve, com o bico, o pescoço e as patas bem parecidas com os seus e que passou voando por perto da Ilha dos Lobos, juntinho da água e mergulhou, de súbito, o seu bico no mar, pescando com grande habilidade um mamarreis prateado. E a garcinha-cinzenta, encantada com o que estava vendo, perguntou a um socózinho que estava com ela na praia.
- “Que ave bonita é aquela ?
Ao que o socózinho respondeu:
- Ah ! Aquela é uma garça, a melhor pescadora de todas as praias.
Mas não adianta você ficar querendo pescar com ela não. Você é apenas um socó de pescoço comprimido !
E assim, a garcinha-cinzenta está pensando até hoje que ela é apenas um socó de pescoço comprido. E é por isso que ela voa pouco, pesca pouco e apenas marisca na beira do mar.
A Pedra rachada
Marisa Lira em A festa de São Roque em Paquetá
Em frente ao “farol vermelho” existe um recife majestoso secionado ao meio. Contavam os velhos da terra: “Dois irmãos, uma índia e um índio, que habitavam aquele local antes da chegada dos europeus, tiveram amores incestuosos. Certa vez, quando praticavam o pecado, um raio caiu sobre eles, separando-os e transformando-os naquelas duas rochas.
A árvore de flores vermelhas
Marisa Lira em A festa de São Roque em Paquetá
“Uma árvore sem flor chorava cruciantemente a sua desdita.
Ouviu-a Tupã. Penalizou-se e com voz tronitruante sentenciou: “Que os raios de fogo do sol ardente transformem esses verdes ramos em milhares de flores rubras”. Tal aconteceu. A galharia verde das árvores frondosas da mata afastaram-se e o sol operou o prodígio — a copa verde do flamboyant transformou-se num lindo ramo de flores rubras e fulgurantes.”